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A mostrar mensagens de fevereiro, 2025

Devagar Se Vai Ao Longe

Há pouco, vi um caracol. Fui embora. E voltei. Agora já não sei onde está, porque se escondeu.  Lentamente. Muito lentamente. Engraçado que quando o caracol me viu pensou em esconder-se, porque estava em perigo. Pensei, por isso, que o caracol contasse com a benevolência momentânea das coisas, mas que sabe que tudo muda num ápice. O caracol, como alguns de nós, prossegue com os seus grandes planos, independentemente da lentidão com que decorrem. Quero, nisto, ser como o caracol. 

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     Hoje, vi uma senhora, que era negra, que não por ser negra, mas que era negra, e acontecendo que era quem é, não mais do que isso, estava a ver um vídeo, que um algoritmo lhe deu como a sequência mais certa para os vídeos que tinha visto antes, que tinha como título "Dez pessoas vivem num quarto e pagam cada um 150 euros" no Instagram, num autocarro, acontecendo que eu, branco, que não por ser branco, mas que sou branco, e acontecendo que sou quem sou, não mais do que isso, comovi-me profundamente com uma fragilidade, quando esta senhora, quando viu esse tal vídeo, segurando o telemóvel com uma mão, prosseguiu com a outra contando dedo a dedo, com dificuldade, quantos eram dez. E ela em tudo parecia uma criança, mas não é o mesmo que vê-lo numa criança, porque sabemos que a criança crescerá e tornar-se-á capaz. É perigoso tentar encapsular num texto o que isto significou para mim. Primeiro que tudo, significou que eu, que sei o que são dez, não sei nada de nada sobre...

É NA DiSTÂNCIA, OU NA MEMÓRIA, OU NA IMAGINAÇÃO QUE O HIMALAIA É DA SUA ALTURA, OU TALVEZ UM POUCO MAIS ALTO!

AS NOSSAS ENTREVISTAS O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesas. Entrevistar Fernando Pessoa não é fácil. Só é fácil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento. Fernando Pessoa, quer como Fernando Pessoa, quer como Álvaro de Campos - o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida -   raios partam a Vida e quem lá ande!   -é sempre um voluptuoso do raciocínio, um amante da inteligência, podemos dizer: um criador duma nova Razão. Paradoxal? Sem dúvida. Mas há tantas maneiras de ser paradoxal! A entrevista que se segue, toda escrita por Fernando Pessoa - nem podia deixar de ser, visto Fernando Pessoa possuir uma sintaxe própria para a lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia, vai decerto prender o espírito dos leitores... Aten...

OS POETAS NASCEM, NÃO SE FAZEM

OS POETAS NASCEM, NÃO SE FAZEM! Fernando Pessoa Entre os vários preconceitos que formam a única bagagem literária com que os nossos “críticos” vão de viagem para Santarém (um conhecido provérbio ali os espera), o mais singular e inexplicável é aquele que consiste em confundir cultura com erudição. É frequente apanhar os nossos pensadores de jornal em flagrante delito de afirmações como esta — que tal criatura é culta porque tem lido muito, porque sabe muito, porque compulsou, assimilando, uma grande paginaria de livros. Ao contrário dos preconceitos da plebe legítima, que muitas vezes têm uma haste de observação, os dogmas da plebe intelectual são falsos em todo o seu comprimento. Este, que acabo de citar, é um dos mais falsos. Porque não só erudição e cultura não são a mesma coisa, como, até, são coisas opostas. Não vão julgar, decerto, que a minha explicação vai ser que é erudito quem leu sem combinar o que leu, e culto quem lê aproveitando. Eu nunca dou explicações que se possam pre...