Mensagens

A mostrar mensagens de 2021

Primavera

     Está frio.      Todos os anos espero ansiosamente pelo 21 de Março que assinala a Primavera e todos os anos me desiludo.           T odos os anos espero por chegar inteiro a esse dia inteiro e quando chega é como se a vida pudesse acabar nele mas que continua, e por isso, esse dia não tem nada de inteiro, tem só de passagem.       Faria sentido não que fosse um dia a que se chegasse, mas um dia que começasse.    

Olivia De Havilland Novamente

  Se A Herdeira é um filme brilhante, que dizer de A Minha História ( Hold Back the Dawn) ? Mais uma vez são assunto os inocentes e os injuriados. Explicar porque gosto deste filme é um pouco como explicar uma memória de grande afecto nossa. De um momento em que amámos. Por mais razão que se ponha na explicação, não é com ela que vamos lá. O afecto é indizível. E eu sinto um afecto incomensurável pela memória que tenho da Emmy Brown.   A Emmy Brown está apaixonada. A Emmy Brown só se quer casar. A Emmy Brown foi enganada a isso. E pelo meio, o facínora (o actor Charles Boyer) enobrece-se. Pelo meio, alguém muda. Alguém muda. Com o tempo, as pessoas vão-se conhecendo. Com o tempo, pouco mudam. Tornam-se resistentes à mudança. Mas há quem seja areia de praia e não rochedo. Há quem nunca se defina. Quem fique no limbo e ninguém os conhece verdadeiramente. Nem eles a si próprios. Por isso, muitos dizem que as pessoas não mudam. Mas mudam se abrirem constantemente a por...

O Feitiço do Tempo (Groundhog day) e o Xadrez

Imagem
   [ Texto publicado na Associação de Xadrez de Lisboa a 27/02/2021] Vou falar mais uma vez sobre xadrez e sobre um filme que nada tem a ver com xadrez. Aparentemente. Tenho de fazer a minha defesa. O xadrez não é simplesmente um tabuleiro com peças. Não é simplesmente saber fazer a melhor jogada. Não é simplesmente aprender com os erros. Não somos máquinas. E não é simplesmente ganhar um jogo. Gosto muito de xadrez. Apela ao meu lado competitivo. E gosto muito de cinema, sendo essa a minha grande paixão. Pediram-me um texto para publicar na AXL que se calhar não é o mais adequado. É o texto que eu tenho. Se se ajusta digam-me vocês. O filme chama-se “O Feitiço do Tempo” (“Groundhog Day”, 1993; Realização:   Harold Ramis; História: Danny Rubin; Argumento: Danny Rubin e Harold Ramis; Actores: Bill Murray, Andy MacDowell, Chris Elliot). O que acontece no filme é que o protagonista fica preso no mesmo dia. O mesmo dia parece repetir-se. As mesmas acções repetem-se da p...

Uma Hora de Albatross, Fleetwood Mac

Imagem
Peter Green, um grande músico e guitarrista, compôs esta música. Esteve no topo das vendas durante algum tempo. Por duas vezes e em alturas distintas.

James Gray. Porque sim.

Imagem
  Conversa entre pai e filho, sendo eu a criança. - Filho, gostas do James Gray? - Gosto muito.   - Porquê, filho? - Porque sim. A força do "porque sim" duma criança é subestimada. É enorme. E eu gosto muito do James Gray. Porque sim.

Sou um Livro Aberto

     Sou um livro aberto      Sou um livro aberto com algumas páginas rasgadas,     à  procura de quem me ajude a encontrá-las,      a encontrar-me,       a arrumá-lo,      a arrumar-me.

Olivia de Havilland

Imagem
     O filme é o The Heiress (A Herdeira). É a preto e branco e é tão preto e tão branco. A protagonista é tão inocente numa primeira parte e tão amargurada numa outra. Mas mesmo muito inocente e mesmo muito amargurada. Conseguem imaginar isto? O vosso filho, neto mais inocente tornado amargurado? A vossa amiga de adolescência mais inocente? Tornada amargurada? Só os grandes vilipêndios provocam isto. Só as grandes tragédias.      A pessoa que quero evocar é a Olivia de Havilland, que morreu no ano passado, aos 104 anos. Que nesse filme batalha pelos inocentes e pelos amargurados. Pelos caídos em desgraça. E ela fá-lo com tanta nobreza. Com tanto amor por eles. E é por isso que durante todo o filme só a queremos ver. Não porque no filme ela é inocente, não porque no filme ela é amargurada. Só a queremos ver porque ela é a pessoa que está para além daquela história, porque ela é quem, através daquele meio, traz dignidade ao que é ser humano. E daí vem o amor...

A Probabilidade do Milagre

Imagem
          Hoje dizia-se que ia chover com mais de 90% de probabilidade. Fui passear e até chegou a fazer sol. Dizia que indubitavelmente entre as 10 e as 17 choveria. Não choveu. A probabilidade não fez nada pela velhota ganhar na roleta duas vezes seguidas no zero, na história O Jogador  de Dostoiévski. Nem por perder tudo de seguida.   A probabilidade rouba-nos a ideia impreterível de que o mais improvável é tão provável quanto o mais provável.   Prefiro acreditar em milagres. Peço-os às vezes. Peço mesmo. Não os controlo. Mas vejo-os acontecer. 

Eu Sou Só Sonho

Imagem
 Toda a minha vida foi só sonho. Por isso, não sei o que pareço aos outros. Porque eu sou só sonho. Sonhos meus que ninguém vê nem sente, a não ser eu. Os outros perceber-me-ão como alguém que fala durante o sono. Pouco sentido faz para elas. Eu faço pouco sentido. E no dia seguinte, quando acordo, perguntam-me o que sonhei. Porque ouviram isto e aquilo durante o meu sono. Mas quando é assim, nunca se acorda verdadeiramente. Eu sou só sonho.

Falar a Mesma Língua

Imagem
 Hoje lembrei-me do filme Ghost Dog do Jim Jarmusch. Lembrei-me dele a propósito da linguagem. De como a percepcionamos, de como ouvimos um som, de como o internalizamos e digerimos. No filme, há duas personagens que não falam a mesma língua mas comunicam-se. Não fazem esforço por cada um entender a sua língua, mas entendem-se. Só através do gesto. E nem estou a falar de um gesto óbvio como apontar ou mimicar. Não, eles entendem-se porque, como diz a expressão idiomática, "falam a mesma língua", e isto não tem nada a ver com língua. E se transpusermos isto para a vida, não teremos mais facilidade em encontrar alguém? Não alguém que fale na nossa língua, mas alguém que "fala a mesma língua".