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O Embuste Americano - American Beauty

Aviso à navegação: TUDO ISTO É LÍRICO Tenho a dizer que a única coisa bonita deste filme é um saco de plástico a voar ao sabor do vento. E no entanto não é bonito, o filme. Todo o suporte desta cena é feia. Tudo é feio. Tudo é embuste, emboscada. Torna tudo difícil, negar que há beleza num saco a voar ao sabor de vento. Como o saco, o filme é de plástico. Como o plástico que se transforma no que quisermos, também o filme é de plástico, não importa nada a forma: é de plástico, sem valor, porcaria. Mas é isso ali o que se vê? É o vento, é o vôo. E como não podemos negar a beleza do vôo e do vento, muita gente não conseguiu negar tudo o resto, que é uma porcaria. Mas como isto também digo: Assim como não podemos negar que todo o filme é uma porcaria, não podemos afirmar que é um saco a voar ao sabor do vento feio. Digo o que digo porque tudo o que lembramos é o saco a voar. Para lembrar para o mal e para lembrar para o bem. É uma emboscada. Para fugirmos ou para lá ficarmos presos. Temos ...

Ressuscitar Num Sonho

Há pouco vi um vídeo. Era sobre um encontro de duas pessoas: entre um jogador de futebol chamado Ian Wright -- que sempre admirei -- e o seu professor, Mr. Pigden. Correu a Ian muito bem a vida profissional, e nunca voltara a ver Mr. Pigden que fora uma figura paterna e referencial. Ele reencontra-o mas tinha como certo que Mr. Pigden estava morto, tinha-lhe sido dito. É filmado o reencontro e é muito bonito. Há uns tempos, sonhei com o meu pai. E estava vivo como não está, no sonho. Fiquei incrédulo primeiro mas ali estava ele vivo. Havia uma luz à volta dele e eu fiquei assoberbado de uma alegria transbordante. Chorei de felicidade e tão convictamente que as convulsões do meu corpo me pareciam fora do sonho, cá fora na realidade, o que me foi acordando e trazendo-me para fora. E aos poucos fui acordando e o pequeno milagre que tinha ainda agora acontecido iria dar lugar lentamente a uma nova morte.  As convulsões de choro continuaram, e fui descobrindo, saindo do sonho, o que aca...

Nick Drake

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  Da Vida O Canto Em criança, mais criança que sou A verdade sempre sempre tardou Já maduro em mim se debruçou  Sobre nós em manto se debruou E eu era verde, mais verde que o campo De todas as flores e do sol em espanto Agora sou sombra, sou mãe em pranto Quem me ajuda, dá da vida o canto E eu era incêndio no sol acendido Pensei ver um dia o dia acontecido  Mas sou desmaio, azul esmaecido Oh, sou o frio do nosso amor perdido Poema meu inspirado na música Place To Be de Nick Drake.  Demasiado meu para ser considerado uma tradução.

Música Para Um Funeral

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Sobre a Gravata

      É preciso dizer, na sociedade portuguesa, ou em todas: Que se lixem os engravatados e todos os que se aproveitam de, de tempos a tempos, a vestir. Meus amigos, não precisamos da gravata. Não precisamos dela, do preço dela, de quem a quer vestir, não precisamos de vocês. Não precisamos de doutores na televisão, título automaticamente concedido por lá aparecerem, não precisamos da pompa, não precisamos dos estudos, não precisamos das distinções, não precisamos de vocês. Não precisamos de quem põe a gravata, sem solenidade, e espera que dela apareça a solenidade, coercivamente.     A gravata, meus amigos, é um objecto, e aqui entra toda a minha rejeição deste objecto, profundamente inestético. É como um badalo num bovino. Eis o que sois, engravatados: bovinos, com a agravante de que os bovinos o são e vós não. Sois uns falsos bovinos. Sois falsos, portanto, é preciso usar da lógica.       É preciso não usar gravata e, sobretudo, ...

Não Sejas Foleiro

Para ser grande, sê inteiro: nada           Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és      No mínimo que fazes.                                                          MAS      Para ser pequeno, sê foleiro: tudo           Teu exagera ou inclui. Sê pouco em cada coisa. Retira quanto és              De  tudo que fazes.

FERNANDO PESSOA FASCISTA

Eu que para a esquerda me pendo -- quem sabe se não há quem veja nisto dissimulação? -- nos actos, nos amigos, horrorizo-me sempre com o retrato assassino numa frase lapidar, consumada em "O Fernando Pessoa era fascista", deste grande homem FERNANDO PESSOA, vertido em génio nestas palavras aqui por baixo de onde escrevo, e aqui cá em cima quero dizer que se uma coisa nos parece bela, ela em si é bela, se nos parece sensível, é porque o é, se nos parece MAIOR, é porque nos faz olhar para o CÉU. E o Fernando Pessoa é maior e não é que era também, nisto, pessoa? Diz um gajo prosaico, o João César Monteiro, numa maneira enviesada num filme, o que ele próprio JCM queria dizer, "Quando eu subir aos céus, direi a vocês mortais: Fodam-se vocês agora que a mim não me fodem mais", cito de cor. Amigos, fodam-se vocês agora, pois Pessoa a estar num céu para o qual só pode existir se existir para pessoas como ele, nesse céu não estará a dizer nada semelhante ao que disse JCM, es...

O Mestre E O Aprendiz

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O mestre diz O aprendiz faz Um prediz No outro paz

Autopsicografia Geracional

____________________ A Geração finge dor Finge tão completamente Que chega a fingir dor Na que deveras sente ____________________ Resolução a coisa nenhuma Afectada de maneirismo Resposta que se quer uma Avançada sobre o abismo ______________________ E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama geração ______________________ Muda o dia muda a hora Gira, muda a presunção "Não será senão agora Que será o mundo são". ______________________ E nisto estamos nós Perdidos em dissolução Em vida até à foz Da nossa desilusão _______________________

Escrevo Aqui Como Não Quero

Meado entre ser mais de mim e ser mais dos outros Embato com toda a força na impossibilidade de ser uma coisa E recolho-me no cobertor de todas as noites dum Inverno na condenação de ser a outra. Li, num livro que peguei hoje, que é bom ser dos outros, ponho assim, segundo E. Sampaio e uns tantos outros com grandes propósitos Sei que não sou, digo-me eu. Nesse mesmo texto, falam de subverter o mal, ponho assim, sendo dos outros Digo-me que se fosse assim, não seria a subversão em si próprio? Que considerar como possível ser ou não é em si negar que se o é?   Sou dos outros porque vivo na orla de mim. Não porque penso que é bom. Vivo assim porque é de mim. A condenação dos outros acontece aí, no contorno, e empurram-me para o centro, que não gosta, não quer, quer sair, quer ser, quer existir, e só o consegue saindo de si. Há todo um abismo quando eu, mágico sem truques, desloco o olhar, de mágico, para dentro. Enfeitiço-me, amaldiçoo-me. Estou a escrever aqui como não quero, so...

Dos Enfunados, Emproados e Cómodos

          Que se lixem os emproados, que vão embarcados, cómodos, que vão enfunados.  É preciso ir, incómodo. Ir, sem saber. Ir, sem aprovação. Ir. Que se lixem os que já sabem. Não saber não tem nada que ver com saber ou não saber, tem só que ver com a transição entre a maravilha e o abismo. Que se lixem os que já sabem. Na maravilha de não saber o que se segue, segue-se o abismo de saber o que dizer, e nunca o contrário.