Chegas, Churdas e Mudas
Estamos num deserto com fome, sede e em desgraça.
Alguém aparece que nos diz que sabe para onde ir, para que comamos, para que bebamos e para que consigamos sair dali.
Ao mesmo tempo, outro alguém aparece e nos diz de forma contrária para não seguirmos essa pessoa, que não é verdade que seja seguindo essa pessoa que vamos ter o que comer, o que beber e como sair dali.
Ambos são igualmente convincentes.
Estou em crer que o desgraçado optará por seguir o que promete uma solução e não o que diz para não o seguir, porque a promessa de alguma coisa não pressupõe adesão plena, pressupõe consentir seguir esse caminho até ao ponto em que possamos abandonar o barco se quisermos, esquecendo também, usando outra vez da metáfora náutica, que depois estando em alto mar tornar-se-á muito mais difícil saltar fora.
No sentido de que quem promete oferece um caminho de acção, e que quem avisa não oferece, adverte só para que não se vá por ali mantendo-se na posição inicial.
Até um assassino as pessoas seguem se por alguma razão acharem que sabe, e sabemos lá nós se sabe, que num meio de um deserto ele nos levará para fora dele.
Se acreditamos neste aforismo, temos pelo menos uma explicação para os tempos de hoje. Eu sou mais uma das pessoas que encaixa na acima mencionada, que advertem para que não se sigam estes caminhos.
Há quem queira seguir por ali.
E nós que defendemos a inacção, a não condução por ali, temos de começar a pensar também em como sair deste deserto. Também nós, os que advertem, vamos atrás do que promete e de a quem ele promete ter saída (que na formulação inicial era o nós hipotético) tentando convencer este último a não seguir por ali, mas acabando ironicamente por percorrer o mesmo caminho do que promete (o tal que nós sabemos ser maldoso).
Preocupemo-nos, sim, em encontrar saída do deserto. O resto virá por si. O que merece ser salvo. O que merece será salvo.
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