Mensagens

A mostrar mensagens de 2023

Zorba, O Grego

     Passa-se numa ilha, Creta, em que os intervenientes são bem demarcados, o povo comporta-se como povo estanque, comportamentos em uníssono sempre. Só umas poucas personagens são caracterizadas. O terreno é árido. Tudo ali tem pouca vida. E o mar que circunda a ilha asfixia o espectador. Zorba, o grego, podia estar ali como podia estar em qualquer sítio, porque vai aonde a vida o leva. O inglês que lá vai, vai porque não importa onde está, nunca vive lugar nenhum. O inglês não vive. Vive na redoma em que os livros o cobrem. Zorba tira-lhe os olhos dos livros. E tentam um feito em conjunto.      Com este filme, não é suposto passar-se um bom bocado. Como digo, tudo é árido. Não há nada verde. Nem as árvores são verdes. Tudo está sempre quente. O que o filme quer dizer talvez seja que a vida é árida e que enquanto vamos em direcção ao fim, que arrisquemos viver, que arrisquemos tentar. Mesmo que falhemos. Tentar de novo. Que não nos resta senão tentar. Uma...

OH, FADO! SO NICE!

Engraçado isto. Até há pouco tempo, uma tez como a minha era suficiente para afastar um alemão, um inglês, um americano, etc. Um “pástéle de bacálau”, num esforço heróico de ajustamento vocal à língua do estrangeiro, dito a um deles pelo tasqueiro quando lhe perguntava o que era apontando para o pastel, bastava para afastar qualquer tipo de esperança de vir a comunicar por terras lusas. Era insuficiente para afastar outros que se estavam a lixar para isso, que só queriam tentar a sorte, mas esses não vinham, porque não haviam os alemães, os ingleses, os americanos. Neste momento, a minha tez não é suficiente para os afastar, porque não vêm sozinhos. A minha língua pouco importa porque inglês é a língua franca. Vêm apesar de mim. E nisto está o lisboeta, agrilhoado à solta, como num safari. Os animais do safari sabem que estão num safari? Somos um espectáculo para quem apanha um avião. Somos uma curiosidade. Somos um motivo de caça. Somos motivo de caridade. Um amigo meu dizia num optim...

Um Homem Tranquilo - John Ford

     É muito estranho que este filme tenha sido feito. E é estranho não porque é antigo, não porque é datado, o filme não tem um senão: é tão estranho assim porque nos afastámos tanto de um mundo em que filmes destes existam e sejam feitos e também porque não parece o seguimento da História. Seja do cinema, seja dos costumes, seja do que for que este mundo é e que este representado no filme não tem.      O antónimo de mundo é imundo. E neste filme é tão claro que este do filme é um verdadeiro mundo, impoluto, casto mesmo no vício e na errância.       O filme começa por um homem regredido à infância. E volta a casa. E depois eles vêem-se.      Mary Kate precisa de um homem, um lar, filhos para estar completa. Sean precisa do mesmo e, assim que chega, Sean compra uma casa, e, assim que chega, vê a mulher que irá ser a mulher da sua vida, mãe dos seus filhos. Sean pensa que está tudo feito. Mary Kate sabe bem que não é a...
o dia  de hoje  é  cinzento como tem de ser tem  cravado um lamento a Mãe  manda  chover. oh, Nohinha... a quem o evoca a lágrima boa em si convoca  e em nós ecoa não há sol  não há Noah há só sal que abençoa.

Os Pássaros e os Velhotes

Há coisas que se mantêm de geração para geração. Ver isso em prática trouxe-me tranquilidade. Cresci a ver velhotes a darem comida a pássaros. Quando era miúdo e assistia a isto, o velho que vi hoje dar comida a pássaros teria 40 como eu agora.  Ele tem agora 70 e dá também comida a pássaros, como esse velho de 70 que assisti dar comida a pássaros há 30 anos.  Se transpusermos isto para tantos actos, tradições, vontades, traz-me uma grande tranquilidade. Também porque sinto que o mundo está a mudar muito à minha volta. Mas há muita coisa que não muda. Os pássaros todo o dia, nas traseiras de minha casa, esperam pacientemente pelas migalhas do almoço, do lanche, do jantar do velhote. Pássaros pequenos, maiores e maiores ainda, todos esperam pacientemente por estes velhotes. Os vindouros pássaros filhos dos pássaros filhos dos pássaros, nas traseiras da minha casa, algures na minha cidade, esperarão pacientemente por mim, quando tiver 70 anos, para lhes dar migalhinhas do meu la...

FUTEBOL NOVAMENTE

Retomando o tema da inveja de muitos: Um triste é triste porque não consegue ser alegre. Um chato é chato porque não consegue interessar. Um imbecil é imbecil porque não sabe ser inteligente. Um pobre é pobre porque não consegue ser rico. Não o contrário. E vocês todos que são bombeiros, agentes imobiliários, actores, escritores, etc. , são-no-lo porque, em primeiríssimo lugar, não tinham jeito para a bola.  Tangas à parte, é isto.

Para as "Pessoas" de Um Pessoano

 Vou falar sobre a não-individualidade dos betos e da individualidade que as pessoas que identificam os outros como betos reclamam para si.  Sempre vi chamarem-me de beto como um insulto. E passo a explicar porquê. Nesta merda letárgica, sofredora e cómica de ser Tiago, nunca vi nenhum beto que se me assemelhasse. Mas quando mo chamam, enfiam-me num saco. Até há pouco tempo percebi que o que mais me chateava não era o saco onde me metiam, era o facto da pessoa que o dizia achar de si própria que não tinha saco nenhum em que se meter, que para ela era reservada toda a complexidade de ser simplesmente pessoa.  Mas foda-se se não sou pessoa também, com toda essa complexidade inerente.