Adília dos Meus 44
Durante os meus 43
Morreu a senhora Adília
De que não sei o nome
Só o que escolheu para escrever
Morri também um pouco
E eu que estou tão Vivo Agora
A Adília era um amor
Que não tenho
Senão pela beleza das palavras
A Adília que amo tanto
Veio visitar-me nos meus 44
A Adília não era linda
Mas a Adília era linda
Porque não é o Tejo da minha cidade
Mas é o rio da minha aldeia que nunca tive
A Adília tem com ela a glória
E eu estou tão contente
Que lá de onde está a saltar de nenúfar-nuvem em nenúfar-nuvem e a comer algodão-nuvem-doce e a beber água-de-chuva-da-fonte
Ela tenha querido muito
Vir aqui
Na forma de um livro
Como quem se transubstancia
Jesus disse
Que o corpo dele
Era pão
Adília quis de outro modo:
Quis ser livro.
Quero achar que és o meu anjo-da-guarda, pode ser, Adília querida?
Guarda a minha alma, Adília, que em tanto confio.
Se te amo é porque me amas.
Se me amas é porque te amo.
Adília que és como uma minha infância alegre
Adília que és como uma condenação-boa de um Deus qualquer grego a um homem sacrificado: uma Primavera a que temos sempre de voltar para sempre
E aqui estou eu
Regressado
A ela.

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