Viva o Jogo!
Em tempos de pandemia, contactava regularmente com o senhor das castanhas, o Virgílio, mesmo em frente a minha casa.
Por lá, os populares vinham falar, vinham-nas comer, às castanhas, vinham cantar.
O Virgílio que as vendia tinha cegado e não sabia com certeza quem eu era, pois embora fosse possível termo-nos visto antes de cegar, nunca tínhamos falado antes de cegar.
Tentei ajudá-lo a voltar a ver mas nunca teve ele essa sorte.
Morreu cego, o Virgílio.
Por lá, aparecia muito desgraçado.
Havia este, motivo que me traz aqui, que apostava mal, mas ficava muito contente quando o Benfica ganhava, quando tinha apostado nisso mesmo. Sabe muita gente que isso traz pouco ou nenhum dinheiro.
Este senhor jogava muito, era maltrapilho, poucos dentes tinha, tinha pouco cuidado com ele, e isto tudo porque tinha pouco em tudo.
Fala-se agora muito de jogo da sorte, da miséria que traz.
E traz miséria.
É certo. Mas não a quem já a tem.
Aos que traz miséria são normalmente pessoas que deviam ter juízo e que não a tinham, à miséria.
Falam de literacia financeira, literacia probabilística.
Quando deviam perceber da probabilidade do milagre: pouca, é pouca.
Experimentem sonhar com uma boca com dentes todos os dias, não os tendo.
Com bacalhau no Natal, não o comendo.
Com dinheiro farto no bolso, não podendo.
Com uma boa aguardente, não a bebendo.
Sonhar com viver com fartura todos os dias, não a vivendo.
Jogariam.
Lembrem-se que o pobre sabe que a esmola nunca é muita, que o pobre desconfia.
Por lá, os populares vinham falar, vinham-nas comer, às castanhas, vinham cantar.
O Virgílio que as vendia tinha cegado e não sabia com certeza quem eu era, pois embora fosse possível termo-nos visto antes de cegar, nunca tínhamos falado antes de cegar.
Tentei ajudá-lo a voltar a ver mas nunca teve ele essa sorte.
Morreu cego, o Virgílio.
Por lá, aparecia muito desgraçado.
Havia este, motivo que me traz aqui, que apostava mal, mas ficava muito contente quando o Benfica ganhava, quando tinha apostado nisso mesmo. Sabe muita gente que isso traz pouco ou nenhum dinheiro.
Este senhor jogava muito, era maltrapilho, poucos dentes tinha, tinha pouco cuidado com ele, e isto tudo porque tinha pouco em tudo.
Fala-se agora muito de jogo da sorte, da miséria que traz.
E traz miséria.
É certo. Mas não a quem já a tem.
Aos que traz miséria são normalmente pessoas que deviam ter juízo e que não a tinham, à miséria.
Falam de literacia financeira, literacia probabilística.
Quando deviam perceber da probabilidade do milagre: pouca, é pouca.
Experimentem sonhar com uma boca com dentes todos os dias, não os tendo.
Com bacalhau no Natal, não o comendo.
Com dinheiro farto no bolso, não podendo.
Com uma boa aguardente, não a bebendo.
Sonhar com viver com fartura todos os dias, não a vivendo.
Jogariam.
Lembrem-se que o pobre sabe que a esmola nunca é muita, que o pobre desconfia.
Saberiam com certeza que podiam morrer sem ter nada disto, mas que não morreriam sem tentar.
Não se trata de precisar de saber que a probabilidade é pouca.
Trata-se de ter esperança ou não ter.
Trata-se de estar morto ou tentar.
Trata-se de não aceitar o nosso fim.
Embora não celebre os parasitas do jogo, os que dele lucram sem jogar, tenho a dizer disto: Viva o jogo!
Não se trata de precisar de saber que a probabilidade é pouca.
Trata-se de ter esperança ou não ter.
Trata-se de estar morto ou tentar.
Trata-se de não aceitar o nosso fim.
Embora não celebre os parasitas do jogo, os que dele lucram sem jogar, tenho a dizer disto: Viva o jogo!
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