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O Gordo Vai À Baliza

Há pouco estive a ler um justiceiro falar sobre tanto tema da actualidade, tipificando o "tuga" como o estúpido comezinho que só sabe ver e falar de bola, pouco mais para além disso. Farto de justiceiros. Farto dessa ideia colectiva do que é o português, Portugal não é senão uma ideia colectiva da qual faço parte no particular. Partir do colectivo para o particular-colectivo tipificando o português só lhe retira toda a complexidade.  Tou farto da simplificação para chegar a um argumento, para facilitar uma ideia. Temos de ser particulares. Temos de não ter medo de sermos particulares. E sim, sob pena de ninguém nos entender. E sim, sob pena de nos confundirmos.  Se há coisa que um puto português da minha geração fazia, gostando ou não, era de jogar à bola. Esquecemo-nos disso? Que a bola é transversal a todos os putos portugueses? Caguei para quem ia à baliza, caguei para quem levava com as boladas, para quem não conseguia marcar golos, para quem era escolhido em último na fo...

Texto Perdido

O meu amor tenta-me controlar.  Parece que tenta, através da não individuação, diluir-se. Não somos nós que nos diluímos, é só ela.  Pelo contrário, afasta-me a mim, faz-me sentir mais a minha vontade. E parece que tem medo da minha vontade.  Que é estar com ela.

Línguas

     Mais do que tudo o que nós possamos saber em quantidade, mais do que o acumular de conhecimento, interessa como o usamos. E isto não é nada fácil de saber, não porque eu ou qualquer outra pessoa - vou-me dar ao luxo de dizer isso, porque acredito que é assim - tenha chegado ao ponto de acumulação de sabedoria em que acha que não precisa de mais, mas porque quem entende isto precisa de se ter libertado dessa avidez. É como aprender uma língua e usar uma língua. Não há nada nas duas coisas que se ligue.

Vertigo (de Alfred Hitchcock)

Revi este filme há uns anos na esplanada da Cinemateca. Uns idiotas riam-se, achavam a música piegas, tudo piegas. Irritou-me solenemente. Não entender a fragilidade da personagem central deste filme é não perceber a nossa própria fragilidade. E não perceber isto é não perceber nada. Um homem apaixona-se. Um homem perde em circunstâncias tenebrosas a amada. O homem tem uma segunda oportunidade. E desta vez ela morre de facto. Quantas vezes numa vida podemos renascer de situações destas? Poucas. Acontece-lhe um milagre. E depois o milagre é-lhe sonegado. É a maior das tragédias. E a música, que aqueles idiotas acharam piegas, é, para aqueles que acompanham a história de facto, apenas as notas do sentimento desbragado, do que tem de invisível, do que roda no coração, do que se irradia quando estamos apaixonados.   

Quadra Para Acompanhar Ramo de Flores

São para ti, meu amor Flores do meu jardim Que te levem toda a dor De estares longe de mim

Texto Perdido

  O sorriso dela é de criança, do que a criança tem de puro, de bom. A vida tirou-lhe a facilidade em o mostrar. Mas não lhe tirou o sorriso. De criança. Às vezes, pergunta alguma coisa também cheia de ingenuidade. De criança. E apetece-me a mim ser criança também e responder com aquele peito cheio, de quem sabe. Mas como uma criança. Pelo meio tornamo-nos adultos e esquecemo-nos de confiar cegamente. Quero dar-lhe a mão e ser o primeiro namorado dela. O primeiro. E único.

Quadra Para Acompanhar Ramo de Flores

     Toma esta flor      Que há-de morrer     Como eu de amor     Se há não te ter

Melhor É Impossível

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Catarina pede um elogio depois de Tiago a ofender brutalmente. Tiago promete um elogio, mas não sem antes pedir dois pregos e duas imperiais.    TIAGO Mal passados? CATARINA Pode ser. TIAGO  (grita) Mal passados! CATARINA Tenho tanto medo que vás dizer mais coisas horríveis. TIAGO Não sejas pessimista. Não é o teu estilo. Aqui vai...  Eu tenho esta... quê? Condição... E o meu terapeuta - um psicólogo - que costumo ver... ele diz que na minha situação arriscares para te sentires vivo ajuda. Eu odeio arriscar. Odeio mesmo. É uma coisa perigosa, arriscar. Nota que estou a usar a palavra odiar. E o meu elogio a ti, Catarina Trindade, é que desde que te conheço que, bem, mal durmo, ando às voltas na cama, não tenho sossego, não como, tudo por tua culpa... CATARINA  (confusa) Não percebo qual é o elogio... TIAGO Tu fazes-me querer estar vivo.   Catarina fica embevecida. EMPREGADO DE MESA Olhós preguinhos, um para a senhora e um para o senhor!     ...