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Nick Drake

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  Da Vida O Canto Em criança, mais criança que sou A verdade sempre sempre tardou Já maduro em mim se debruçou  Sobre nós em manto se debruou Eu era verde, mais verde que o campo De todas as flores e do sol em espanto Agora sou sombra, sou mãe em pranto Se me ajudas, dá-me da vida o canto E eu era incêndio no sol acendido Pensei ver um dia o dia acontecido  Agora sou pálido, azul enfraquecido Oh, sou o frio do nosso amor perdido Poema meu inspirado na música Place To Be de Nick Drake.  Demasiado meu para ser considerado uma tradução.

Música Para Um Funeral

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Sobre a Gravata

      É preciso dizer, na sociedade portuguesa, ou em todas: Que se lixem os engravatados e todos os que se aproveitam de, de tempos a tempos, a vestir. Meus amigos, não precisamos da gravata. Não precisamos dela, do preço dela, de quem a quer vestir, não precisamos de vocês. Não precisamos de doutores na televisão, título automaticamente concedido por lá aparecerem, não precisamos da pompa, não precisamos dos estudos, não precisamos das distinções, não precisamos de vocês. Não precisamos de quem põe a gravata, sem solenidade, e espera que dela apareça a solenidade, coercivamente.     A gravata, meus amigos, é um objecto, e aqui entra toda a minha rejeição deste objecto, profundamente inestético. É como um badalo num bovino. Eis o que sois, engravatados: bovinos, com a agravante de que os bovinos o são e vós não. Sois uns falsos bovinos. Sois falsos, portanto, é preciso usar da lógica.       É preciso não usar gravata e, sobretudo, ...

FERNANDO PESSOA FASCISTA

Eu que para a esquerda me pendo -- quem sabe se não há quem veja nisto dissimulação? -- nos actos, nos amigos, horrorizo-me sempre com o retrato assassino numa frase lapidar, consumada em "O Fernando Pessoa era fascista", deste grande homem FERNANDO PESSOA, vertido em génio nestas palavras aqui por baixo de onde escrevo, e aqui cá em cima quero dizer que se uma coisa nos parece bela, ela em si é bela, se nos parece sensível, é porque o é, se nos parece MAIOR, é porque nos faz olhar para o CÉU. E o Fernando Pessoa é maior e não é que era também, nisto, pessoa? Diz um gajo prosaico, o João César Monteiro, numa maneira enviesada num filme, o que ele próprio JCM queria dizer, "Quando eu subir aos céus, direi a vocês mortais: Fodam-se vocês agora que a mim não me fodem mais", cito de cor. Amigos, fodam-se vocês agora, pois Pessoa a estar num céu para o qual só pode existir se existir para pessoas como ele, nesse céu não estará a dizer nada semelhante ao que disse JCM, es...

O Mestre E O Aprendiz

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O mestre diz O aprendiz faz Um prediz No outro paz

Autopsicografia Geracional

____________________ A Geração finge dor Finge tão completamente Que chega a fingir dor Na que deveras sente ____________________ Resolução a coisa nenhuma Afectada de maneirismo Resposta que se quer uma Avançada sobre o abismo ______________________ E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama geração ______________________ Muda o dia muda a hora Gira, muda a presunção "Não será senão agora Que será o mundo são". ______________________ E nisto estamos nós Perdidos em dissolução Em vida até à foz Da nossa desilusão _______________________

Escrevo Aqui Como Não Quero

Meado entre ser mais de mim e ser mais dos outros Embato com toda a força na impossibilidade de ser uma coisa E recolho-me no cobertor de todas as noites dum Inverno na condenação de ser a outra. Li, num livro que peguei hoje, que é bom ser dos outros, ponho assim, segundo E. Sampaio e uns tantos outros com grandes propósitos Sei que não sou, digo-me eu. Nesse mesmo texto, falam de subverter o mal, ponho assim, sendo dos outros Digo-me que se fosse assim, não seria a subversão em si próprio? Que considerar como possível ser ou não é em si negar que se o é?   Sou dos outros porque vivo na orla de mim. Não porque penso que é bom. Vivo assim porque é de mim. A condenação dos outros acontece aí, no contorno, e empurram-me para o centro, que não gosta, não quer, quer sair, quer ser, quer existir, e só o consegue saindo de si. Há todo um abismo quando eu, mágico sem truques, desloco o olhar, de mágico, para dentro. Enfeitiço-me, amaldiçoo-me. Estou a escrever aqui como não quero, so...

Dos Enfunados, Emproados e Cómodos

          Que se lixem os emproados, que vão embarcados, cómodos, que vão enfunados.  É preciso ir, incómodo. Ir, sem saber. Ir, sem aprovação. Ir. Que se lixem os que já sabem. Não saber não tem nada que ver com saber ou não saber, tem só que ver com a transição entre a maravilha e o abismo. Que se lixem os que já sabem. Na maravilha de não saber o que se segue, segue-se o abismo de saber o que se dizer, e nunca o contrário. 

Quase - Mário de Sá Carneiro

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QUASE Um pouco mais de sol — eu era brasa. Um pouco mais de azul — eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído Num baixo mar enganador d'espuma; E o grande sonho despertado em bruma, O grande sonho — ó dor! — quase vivido... Quase o amor, quase o triunfo e a chama, Quase o princípio e o fim — quase a expansão... Mas na minh'alma tudo se derrama... Entanto nada foi só ilusão! De tudo houve um começo... e tudo errou... — Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... — Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, Asa que se elançou mas não voou... Momentos de alma que desbaratei... Templos aonde nunca pus um altar... Rios que perdi sem os levar ao mar... Ânsias que foram mas que não fixei... Se me vagueio, encontro só indícios... Ogivas para o sol — vejo-as cerradas; E mãos de herói, sem fé, acobardadas, Puseram grades sobre os precipícios... Num ímpeto difuso de quebranto, Tudo encetei e nada possuí......

Leah

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A minha sobrinha é linda. A minha sobrinha é maravilha. Eu amo a minha sobrinha inteiramente. Sou mais inteiro porque ela existe. Sou mais eu. Sou mais cá. Sou mais em mim. Sou mais dos outros. Se conhecerem o poema do rio da minha aldeia do Pessoa, então sabem que a minha sobrinha é como o rio da minha aldeia e que o Tejo para mim pouco importa. A minha sobrinha brinca. E palra, melhor, palavra feia aquela, ela canta. E é linda, já disse? A minha sobrinha é ternura. Vêem-se guerras, notícias escabrosas, e ela sorri e é só ternura. A ternura da minha sobrinha é misteriosa porque não depende de nada e encerra o grande mistério de não ter nenhuma razão para isso. Claro, e dizem bem, que é das coisas quando têm mistério parecerem ter razões ocultas que não conseguimos discernir. Mas há maior mistério ser só ternura e não ter razão nenhuma para isso? Ser o que é? A minha sobrinha cresce. Quando nasceu, nasceu pequena. E era a coisa mais frágil e terna. E agora está maior, porque neste dia...

Chegas, Churdas e Mudas

     Estamos num deserto com fome, sede e em desgraça.         Alguém aparece que nos diz que sabe para onde ir, para que comamos, para que bebamos e para que consigamos sair dali.              Ao mesmo tempo, outro alguém aparece e nos diz de forma contrária para não seguirmos essa pessoa, que não é verdade que seja seguindo essa pessoa que vamos ter o que comer, o que beber e como sair dali.       Ambos são igualmente convincentes.                   Estou em crer que o desgraçado optará por seguir o que promete uma solução e não o que diz para não o seguir, porque a promessa de alguma coisa não pressupõe adesão plena, pressupõe consentir seguir esse caminho até ao ponto em que possamos abandonar o barco se quisermos, esquecendo também, usando outra vez da metáfora náutica, que depois estando em alto mar tornar-se-á muito mais difíci...

Maravilha

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Soube da minha avó Teresa toda a vida que tocava piano E se mo perguntarem fica a saber a pessoa que a minha avó tocava piano E agora sabem-no vocês que a minha avó tocava piano Maravilha! Durante muitos anos soube que a minha avó tocava piano E se mo perguntassem diria que sabia tocar Mas não o sabia eu que o sabia Saberia? Um dia, muito depois de saber que a minha avó tocava piano A minha avó sentou-se E a minha avó e a minha avó tocar piano encontraram-se E toda uma vida foi evocada E a minha avó transfigurou-se-me E a maravilha maravilhou-me Nesse dia. E percebo agora À distância do que me provocou Que saber não tem nada que se saiba Se nele não houver o que maravilhou.

Amor A Ligar

No autocarro  A senhora no lugar diante de mim Tocou-se-lhe o telefone  Tinha Amor escrito, era o Amor que lhe ligava E ela fez descaso  E não atendeu imediatamente  Deixou o Amor chamar umas quantas vezes  Enquanto falava com a amiga  E depois atendeu  E disse Que já tinha saído do trabalho  E que estava já no autocarro  A caminho de casa.

ALBERTO CAEIRO - O Mistério das Coisas, Onde Está Ele?

  Alberto Caeiro XXXIX - O mistério das coisas, onde está ele? XXXIX   O mistério das coisas, onde está ele? Onde está ele que não aparece Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? Que sabe o rio e que sabe a árvore E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso? Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas, Rio como um regato que soa fresco numa pedra.   Porque o único sentido oculto das coisas É elas não terem sentido oculto nenhum, É mais estranho do que todas as estranhezas E do que os sonhos de todos os poetas E os pensamentos de todos os filósofos, Que as coisas sejam realmente o que parecem ser E não haja nada que compreender.   Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: — As coisas não têm significação: têm existência. As coisas são o único sentido oculto das coisas. s.d. “O Guardador de Rebanhos”. In  Poemas de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisb...

Pose

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A poesia é uma pose. Mas a pose não é a poesia.

EVIL EMPIRE Dos Rage Against The Machine / Revy Krund

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Há nestas músicas qualquer coisa do que é ser ocidental: digo ocidental no sentido do progressista, don't give a fuck, andar de skate, comprar porcaria que não nos vai servir para coisa nenhuma, namorar alguém que a família não conhece de lado nenhum nem nunca vai conhecer, ver filmes por ócio, movimento em progressão para lado nenhum porque não há lado nenhum para onde ir, fazer desporto de ondas de praia que matam muitos, há qualquer coisa no ocidente de novo, evocadas com estas músicas, evoco a força que move a humanidade, que faz a humanidade saber quem é e ver o Tom Cruise, e que no mesmo movimento se está a lixar para quem é o Tom Cruise, esta sociedade sem Deus cujo Deus é não ter Deus, esta luz que refracta tudo o que não a compreende mas a explora mas que é Maior e é Maior porque é Livre e sabe que é Livre e vence porque Progride assim enquanto os outros a Seguem. E NISTO: estamos insatisfeitos! E o mundo não o sabe. Somos a Vanguarda de Coisa Nenhuma. E  Agora  Dizem...

Mãe

A minha mãe não se lembra de que quando se almoça vamos "almoçar", porque lhe lembra o jantar, mas não diz do jantar que se vai almoçar, porque a minha mãe janta duas vezes, e janta duas vezes porque é feita de noite e é da noite jantar, embora por vezes, quando tem mesmo de ser, se lembre de fazer um almoço, mas tem que ser um almoço-ajantarado. A minha mãe não se lembra do nome das coisas que quer nomear, por isso diz que são "coisas" as coisas que quer nomear, porque a minha mãe lembra-se primeiramente dos outros antes de nomear o que quer nomear, e pede aos outros ajuda para encontrar o que quer, porque a minha mãe é feita dos outros e é coisa dos outros saberem o que a minha mãe quer: e apenas quer o que os outros querem. A minha mãe tem a memória dos que vivem no dia e vive para onde o dia a levar, tanto podendo ser aqui ou ali, não lhe importa onde, por isso quando o dia não a leva para onde o dia vai, a minha mãe frustra-se porque é para lá. A minha mãe é pr...

Em Mondariz (Auto-Psicografia)

 Há pouco vi uma pessoa que me lembrou o meu pai, e quando o vi, lembrou o que seria ele estar ali e comecei a pensar neste texto e as lágrimas ameaçaram querer sair e eu que estou numa feira cheia de gente e parei de pensar nisso.  Mas logo não fui capaz de não sentir que ele estava cá entre nós, e a vida tornou-se mais doce, e as lágrimas que sabem que não é assim ameaçaram querer sair e eu que estou numa feira cheia de gente e parei de pensar nisso. E agora, que procurei um sítio junto a uma parede onde me apoio, onde vim para me recatar, numa feira cheia gente, as lágrimas que ameaçavam querer sair caem, enquanto escrevo este texto. São doces. Como a vida não é, mas como a presença do meu pai é. E eu não sabia que ainda podia ser. Ainda que enganado.

Paredes de Coura

     Há pouco, no noticiário, ouvi uns miúdos a falarem da experiência que tiveram no festival Paredes de Coura, completamente parvos e tont os, e pensei: "Q ue estúpido que eu era".           Mas estando agora a escrever isto, penso: "Que estúpidos que os fazem".      E agora ainda mais penso: "E que bem por estúpidos se fazem passar". E acho ainda mesmo mais: "Que estúpido o que estupidez vê nisto".     

Almas Mortas (Joy Division)

Que me arranquem o sonho Que me retira o agora Sou em mim duplo E equivalente E chamo-me Chamam-me Chamam-me  Num contínuo  Em mim, o passado é presente Tudo me ridiculariza Do império deificado  Fui despojado E chamo-me E chamam-me Num contínuo  Chamam-me Chamam-me, chamam-me Chamam-me, chamam-me E chamam-me Chamam-me Num contínuo Tradução livre minha da música Dead Souls de Joy Division.