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Cimento

Amar é amar só uma pessoa. Amamos quando circunscrevemos. Quando nos comprometemos. Quando paramos. Amamos pessoas concretas. Amar é concreto. Como o cimento. E cimenta.

Carlos Galvão Lucas (31-07-1952, 30-01-2025)



Foi um homem de acção, da cura. Eu que sou das palavras e da fantasia, ele que era dos actos e da presença. Foi bom ser filho do meu pai. 
 Sinto a falta do meu pai de uma maneira boa: sinto falta da presença, mas não da bondade que emanava, essa claro que não a perdi, porque a tenho comigo, não foi a lado nenhum.
 Foi tão boa gente. 
 Que importa o resto? 
 Se foi tão boa gente. 
 Foi maior. Foi meu pai.
 Fui filho de um céu sem nuvens.
 Fui filho de uma praia. Fui filho de um horizonte.
 Fui filho do mar.
Tudo o que era poesia em mim morreu porque ela ma levou, me levou. Agora sou prático e não se pode ser prático e poeta. E tudo o que tenho de imaginação serve para me lembrar da cara dela serve para lembrar coisas bonitas nossas. Tudo o que tenho de força serve para projectar um futuro improvável. Tudo o que tenho de palavras digo-as a ninguém senão a ela em pensamentos-voz que se evolam porque não ditos, não vividos. Sou uma música que embala a noite. Mas não a minha noite. A minha noite tem uma noite que vai do início do dia até ao fim da noite. Acordo de noite. Vivo de noite. Adormeço de noite. E é uma noite triste. E é triste ser triste. Noite, deixa que acorde num novo dia. E que seja ela quem me acorde de sorriso. Que sempre tem, quando acorda.

Azul

Como o céu azul Que não é céu Sou azul   Sem o ser   Quando dizem azul Reparam na cor do azul Que é azul e é como lembrar. Mas o azul é de ver Não é de lembrar E eu sou como o azul De ver. Se está céu de chuva E o céu cor cinzenta e o céu não é azul Não é o céu menos azul porque nem sempre é azul E também eu não sou azul por isso. Que nunca sou só azul. Eu sou azul porque sou como ver azul.

Adília dos Meus 44

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                           Durante os meus 43 Morreu a senhora Adília  De que não sei o nome  Só o que escolheu para escrever  Morri também um pouco  E eu que estou tão Vivo Agora  A Adília era um amor Que não tenho  Senão pela beleza das palavras  A Adília que amo tanto  Veio visitar-me nos meus 44 A Adília não era linda  Mas a Adília era linda Porque não é o Tejo da minha cidade  Mas é o rio da minha aldeia que nunca tive  A Adília tem com ela a glória  E eu estou tão contente  Que lá de onde está a saltar de nenúfar-nuvem em nenúfar-nuvem e a comer algodão-nuvem-doce e a beber água-de-chuva-da-fonte Ela tenha querido muito  Vir aqui  Na forma de um livro Como quem se transubstancia Jesus disse Que o corpo dele Era pão  Adília quis de outro modo: Quis ser livro. Quero achar que és o meu anjo-da-guarda, pode ser, Adília querida? Guarda a ...

Viva o Jogo da Sorte!

     Em tempos de pandemia, contactava regularmente com o senhor das castanhas, o Virgílio, mesmo em frente a minha casa.      Por lá, os populares vinham falar, vinham-nas comer, às castanhas, vinham cantar.      O Virgílio que as vendia tinha cegado e não sabia com certeza quem eu era, pois embora fosse possível termo-nos visto antes de cegar, nunca tínhamos falado antes de cegar.      Tentei ajudá-lo a voltar a ver mas nunca teve ele essa sorte.      Morreu cego, o Virgílio.      Por lá, aparecia muito desgraçado.      Havia este senhor, motivo que me traz aqui, que apostava mal, mas ficava muito contente quando o Benfica ganhava, quando tinha apostado nisso mesmo. Sabe muita gente que isso traz pouco ou nenhum dinheiro.      Este senhor jogava muito, era maltrapilho, poucos dentes tinha, tinha pouco cuidado com ele, e isto tudo porque tinha pouco em tudo.  ...

O Embuste Americano - American Beauty

Aviso à navegação: TUDO ISTO É LÍRICO Tenho a dizer que a única coisa bonita deste filme é um saco de plástico a voar ao sabor do vento. E no entanto não é bonito, o filme. Todo o suporte desta cena é feia. Tudo é feio. Tudo é embuste, emboscada. Torna tudo difícil, negar que há beleza num saco a voar ao sabor de vento. Como o saco, o filme é de plástico. Como o plástico que se transforma no que quisermos, também o filme é de plástico, não importa nada a forma: é de plástico, sem valor, porcaria. Mas é isso ali o que se vê? É o vento, é o vôo. E como não podemos negar a beleza do vôo e do vento, muita gente não conseguiu negar tudo o resto, que é uma porcaria. Mas como isto também digo: Assim como não podemos negar que todo o filme é uma porcaria, não podemos afirmar que é um saco a voar ao sabor do vento feio. Digo o que digo porque tudo o que lembramos é o saco a voar. Para lembrar para o mal e para lembrar para o bem. É uma emboscada. Para fugirmos ou para lá ficarmos presos. Temos ...

Ressuscitar Num Sonho

Há pouco vi um vídeo. Era sobre um encontro de duas pessoas: entre um jogador de futebol chamado Ian Wright -- que sempre admirei -- e o seu professor, Mr. Pigden. Correu a Ian muito bem a vida profissional, e nunca voltara a ver Mr. Pigden que fora uma figura paterna e referencial. Ele reencontra-o mas tinha como certo que Mr. Pigden estava morto, tinha-lhe sido dito. É filmado o reencontro e é muito bonito. Há uns tempos, sonhei com o meu pai. E estava vivo como não está, no sonho. Fiquei incrédulo primeiro mas ali estava ele vivo. Havia uma luz à volta dele e eu fiquei assoberbado de uma alegria transbordante. Chorei de felicidade e tão convictamente que as convulsões do meu corpo me pareciam fora do sonho, cá fora na realidade, o que me foi acordando e trazendo-me para fora. E aos poucos fui acordando e o pequeno milagre que tinha ainda agora acontecido iria dar lugar lentamente a uma nova morte.  As convulsões de choro continuaram, e fui descobrindo, saindo do sonho, o que aca...

Nick Drake

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  Da Vida O Canto Em criança, mais criança que sou A verdade sempre sempre tardou Já maduro em mim se debruçou  Sobre nós em manto se debruou E eu era verde, mais verde que o campo De todas as flores e do sol em espanto Agora sou sombra, sou mãe em pranto Quem me ajuda, dá da vida o canto E eu era incêndio no sol acendido Pensei ver um dia o dia acontecido  Mas sou desmaio, azul esmaecido Sou o frio do nosso amor perdido Poema meu inspirado na música Place To Be de Nick Drake.  Demasiado meu para ser considerado uma tradução.

Música Para Um Funeral

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Sobre a Gravata

      É preciso dizer, na sociedade portuguesa, ou em todas: Que se lixem os engravatados e todos os que se aproveitam de, de tempos a tempos, a vestir. Meus amigos, não precisamos da gravata. Não precisamos dela, do preço dela, de quem a quer vestir, não precisamos de vocês. Não precisamos de doutores na televisão, título automaticamente concedido por lá aparecerem, não precisamos da pompa, não precisamos dos estudos, não precisamos das distinções, não precisamos de vocês. Não precisamos de quem põe a gravata, sem solenidade, e espera que dela apareça a solenidade, coercivamente.     A gravata, meus amigos, é um objecto, e aqui entra toda a minha rejeição deste objecto, profundamente inestético. É como um badalo num bovino. Eis o que sois, engravatados: bovinos, com a agravante de que os bovinos o são e vós não. Sois uns falsos bovinos. Sois falsos, portanto, é preciso usar da lógica.       É preciso não usar gravata e, sobretudo, ...

Não Sejas Foleiro

Para ser grande, sê inteiro: nada           Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és      No mínimo que fazes.                                                          MAS      Para ser pequeno, sê foleiro: tudo           Teu exagera ou exclui. Sê pouco em cada coisa. Retira quanto és              De  tudo que fazes.

FERNANDO PESSOA FASCISTA

Eu que para a esquerda me pendo -- quem sabe se não há quem veja nisto dissimulação? -- nos actos, nos amigos, horrorizo-me sempre com o retrato assassino numa frase lapidar, consumada em "O Fernando Pessoa era fascista", deste grande homem FERNANDO PESSOA, vertido em génio nestas palavras aqui por baixo de onde escrevo, e aqui cá em cima quero dizer que se uma coisa nos parece bela, ela em si é bela, se nos parece sensível, é porque o é, se nos parece MAIOR, é porque nos faz olhar para o CÉU. E o Fernando Pessoa é maior e não é que era também, nisto, pessoa? Diz um gajo prosaico, o João César Monteiro, numa maneira enviesada num filme, o que ele próprio JCM queria dizer, "Quando eu subir aos céus, direi a vocês mortais: Fodam-se vocês agora que a mim não me fodem mais", cito de cor. Amigos, fodam-se vocês agora, pois Pessoa a estar num céu para o qual só pode existir se existir para pessoas como ele, nesse céu não estará a dizer nada semelhante ao que disse JCM, es...

O Mestre E O Aprendiz

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O mestre diz O aprendiz faz Um prediz No outro paz

Autopsicografia Geracional

____________________ A Geração finge dor Finge tão completamente Que chega a fingir dor Na que deveras sente ____________________ Resolução a coisa nenhuma Afectada de maneirismo Resposta que se quer uma Avançada sobre o abismo ______________________ E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama geração ______________________ Muda o dia muda a hora Gira, muda a presunção "Não será senão agora Que será o mundo são". ______________________ E nisto estamos nós Perdidos em dissolução Em vida até à foz Da nossa desilusão _______________________

Escrevo Aqui Como Não Quero

Meado entre ser mais de mim e ser mais dos outros Embato com toda a força na impossibilidade de ser uma coisa E recolho-me no cobertor de todas as noites dum Inverno na condenação de ser a outra. Li, num livro que peguei hoje, que é bom ser dos outros, ponho assim, segundo E. Sampaio e uns tantos outros com grandes propósitos Sei que não sou, digo-me eu. Nesse mesmo texto, falam de subverter o mal, ponho assim, sendo dos outros Digo-me que se fosse assim, não seria a subversão em si próprio? Que considerar como possível ser ou não é em si negar que se o é?   Sou dos outros porque vivo na orla de mim. Não porque penso que é bom. Vivo assim porque é de mim. A condenação dos outros acontece aí, no contorno, e empurram-me para o centro, que não gosta, não quer, quer sair, quer ser, quer existir, e só o consegue saindo de si. Há todo um abismo quando eu, mágico sem truques, desloco o olhar, de mágico, para dentro. Enfeitiço-me, amaldiçoo-me. Estou a escrever aqui como não quero, so...

Dos Enfunados, Emproados e Cómodos

          Que se lixem os emproados, que vão embarcados, cómodos, que vão enfunados.  É preciso ir, incómodo. Ir, sem saber. Ir, sem aprovação. Ir. Que se lixem os que já sabem. Não saber não tem nada que ver com saber ou não saber, tem só que ver com a transição entre a maravilha e o abismo. Que se lixem os que já sabem. Na maravilha de não saber o que se segue, segue-se o abismo de saber o que dizer, e nunca o contrário. 

Leah

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A minha sobrinha é linda. A minha sobrinha é maravilha. Eu amo a minha sobrinha inteiramente. Sou mais inteiro porque ela existe. Sou mais eu. Sou mais cá. Sou mais em mim. Sou mais dos outros. Se conhecerem o poema do rio da minha aldeia do Pessoa, então sabem que a minha sobrinha é como o rio da minha aldeia e que o Tejo para mim pouco importa. A minha sobrinha brinca. E palra, melhor, palavra feia aquela, ela canta. E é linda, já disse? A minha sobrinha é ternura. Vêem-se guerras, notícias escabrosas, e ela sorri e é só ternura. A ternura da minha sobrinha é misteriosa porque não depende de nada e encerra o grande mistério de não ter nenhuma razão para isso. Claro, e dizem bem, que é das coisas quando têm mistério parecerem ter razões ocultas que não conseguimos discernir. Mas há maior mistério ser só ternura e não ter razão nenhuma para isso? Ser o que é? A minha sobrinha cresce. Quando nasceu, nasceu pequena. E era a coisa mais frágil e terna. E agora está maior, porque neste dia...

Maravilha

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Soube da minha avó Teresa toda a vida que tocava piano E se mo perguntarem fica a saber a pessoa que a minha avó tocava piano E agora sabem-no vocês que a minha avó tocava piano Maravilha! Durante muitos anos soube que a minha avó tocava piano E se mo perguntassem diria que sabia tocar Mas não o sabia eu que o sabia Saberia? Um dia, muito depois de saber que a minha avó tocava piano A minha avó sentou-se E a minha avó e a minha avó tocar piano encontraram-se E toda uma vida foi evocada E a minha avó transfigurou-se-me E a maravilha maravilhou-me Nesse dia. E percebo agora À distância do que me provocou Que saber não tem nada que se saiba Se nele não houver o que maravilhou.

Amor A Ligar

No autocarro  A senhora no lugar diante de mim Tocou-se-lhe o telefone  Tinha Amor escrito, era o Amor que lhe ligava E ela fez descaso  E não atendeu imediatamente  Deixou o Amor chamar umas quantas vezes  Enquanto falava com a amiga  E depois atendeu  E disse Que já tinha saído do trabalho  E que estava já no autocarro  A caminho de casa.