Tudo o que era poesia em mim morreu porque ela ma levou, me levou. Agora sou prático e não se pode ser prático e poeta. E tudo o que tenho de imaginação serve para me lembrar da cara dela serve para lembrar coisas bonitas nossas. Tudo o que tenho de força serve para projectar um futuro improvável. Tudo o que tenho de palavras digo-as a ninguém senão a ela em pensamentos-voz que se evolam porque não ditos, não vividos. Sou uma música que embala a noite. Mas não a minha noite. A minha noite tem uma noite que vai do início do dia até ao fim da noite. Acordo de noite. Vivo de noite. Adormeço de noite. E é uma noite triste. E é triste ser triste. Noite, deixa que acorde num novo dia. E que seja ela quem me acorde de sorriso. Que sempre tem, quando acorda.
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Azul
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Tiago GL
Como o céu azul Que não é céu Sou azul Sem o ser Quando dizem azul Reparam na cor do azul Que é azul e é como lembrar. Mas o azul é de ver Não é de lembrar E eu sou como o azul De ver. Se está céu de chuva E o céu cor cinzenta e o céu não é azul Não é o céu menos azul porque nem sempre é azul E também eu não sou azul por isso. Que nunca sou só azul. Eu sou azul porque sou como ver azul.
Adília dos Meus 44
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Tiago GL
Durante os meus 43 Morreu a senhora Adília De que não sei o nome Só o que escolheu para escrever Morri também um pouco E eu que estou tão Vivo Agora A Adília era um amor Que não tenho Senão pela beleza das palavras A Adília que amo tanto Veio visitar-me nos meus 44 A Adília não era linda Mas a Adília era linda Porque não é o Tejo da minha cidade Mas é o rio da minha aldeia que nunca tive A Adília tem com ela a glória E eu estou tão contente Que lá de onde está a saltar de nenúfar-nuvem em nenúfar-nuvem e a comer algodão-nuvem-doce e a beber água-de-chuva-da-fonte Ela tenha querido muito Vir aqui Na forma de um livro Como quem se transubstancia Jesus disse Que o corpo dele Era pão Adília quis de outro modo: Quis ser livro. Quero achar que és o meu anjo-da-guarda, pode ser, Adília querida? Guarda a ...
Viva o Jogo da Sorte!
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Tiago GL
Em tempos de pandemia, contactava regularmente com o senhor das castanhas, o Virgílio, mesmo em frente a minha casa. Por lá, os populares vinham falar, vinham-nas comer, às castanhas, vinham cantar. O Virgílio que as vendia tinha cegado e não sabia com certeza quem eu era, pois embora fosse possível termo-nos visto antes de cegar, nunca tínhamos falado antes de cegar. Tentei ajudá-lo a voltar a ver mas nunca teve ele essa sorte. Morreu cego, o Virgílio. Por lá, aparecia muito desgraçado. Havia este senhor, motivo que me traz aqui, que apostava mal, mas ficava muito contente quando o Benfica ganhava, quando tinha apostado nisso mesmo. Sabe muita gente que isso traz pouco ou nenhum dinheiro. Este senhor jogava muito, era maltrapilho, poucos dentes tinha, tinha pouco cuidado com ele, e isto tudo porque tinha pouco em tudo. ...
O Embuste Americano - American Beauty
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Tiago GL
Aviso à navegação: TUDO ISTO É LÍRICO Tenho a dizer que a única coisa bonita deste filme é um saco de plástico a voar ao sabor do vento. E no entanto não é bonito, o filme. Todo o suporte desta cena é feia. Tudo é feio. Tudo é embuste, emboscada. Torna tudo difícil, negar que há beleza num saco a voar ao sabor de vento. Como o saco, o filme é de plástico. Como o plástico que se transforma no que quisermos, também o filme é de plástico, não importa nada a forma: é de plástico, sem valor, porcaria. Mas é isso ali o que se vê? É o vento, é o vôo. E como não podemos negar a beleza do vôo e do vento, muita gente não conseguiu negar tudo o resto, que é uma porcaria. Mas como isto também digo: Assim como não podemos negar que todo o filme é uma porcaria, não podemos afirmar que é um saco a voar ao sabor do vento feio. Digo o que digo porque tudo o que lembramos é o saco a voar. Para lembrar para o mal e para lembrar para o bem. É uma emboscada. Para fugirmos ou para lá ficarmos presos. Temos ...
Ressuscitar Num Sonho
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Tiago GL
Há pouco vi um vídeo. Era sobre um encontro de duas pessoas: entre um jogador de futebol chamado Ian Wright -- que sempre admirei -- e o seu professor, Mr. Pigden. Correu a Ian muito bem a vida profissional, e nunca voltara a ver Mr. Pigden que fora uma figura paterna e referencial. Ele reencontra-o mas tinha como certo que Mr. Pigden estava morto, tinha-lhe sido dito. É filmado o reencontro e é muito bonito. Há uns tempos, sonhei com o meu pai. E estava vivo como não está, no sonho. Fiquei incrédulo primeiro mas ali estava ele vivo. Havia uma luz à volta dele e eu fiquei assoberbado de uma alegria transbordante. Chorei de felicidade e tão convictamente que as convulsões do meu corpo me pareciam fora do sonho, cá fora na realidade, o que me foi acordando e trazendo-me para fora. E aos poucos fui acordando e o pequeno milagre que tinha ainda agora acontecido iria dar lugar lentamente a uma nova morte. As convulsões de choro continuaram, e fui descobrindo, saindo do sonho, o que aca...
Nick Drake
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Tiago GL
Da Vida O Canto Em criança, mais criança que sou A verdade sempre sempre tardou Já maduro em mim se debruçou Sobre nós em manto se debruou E eu era verde, mais verde que o campo De todas as flores e do sol em espanto Agora sou sombra, sou mãe em pranto Quem me ajuda, dá da vida o canto E eu era incêndio no sol acendido Pensei ver um dia o dia acontecido Mas sou desmaio, azul esmaecido Sou o frio do nosso amor perdido Poema meu inspirado na música Place To Be de Nick Drake. Demasiado meu para ser considerado uma tradução.
Sobre a Gravata
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Tiago GL
É preciso dizer, na sociedade portuguesa, ou em todas: Que se lixem os engravatados e todos os que se aproveitam de, de tempos a tempos, a vestir. Meus amigos, não precisamos da gravata. Não precisamos dela, do preço dela, de quem a quer vestir, não precisamos de vocês. Não precisamos de doutores na televisão, título automaticamente concedido por lá aparecerem, não precisamos da pompa, não precisamos dos estudos, não precisamos das distinções, não precisamos de vocês. Não precisamos de quem põe a gravata, sem solenidade, e espera que dela apareça a solenidade, coercivamente. A gravata, meus amigos, é um objecto, e aqui entra toda a minha rejeição deste objecto, profundamente inestético. É como um badalo num bovino. Eis o que sois, engravatados: bovinos, com a agravante de que os bovinos o são e vós não. Sois uns falsos bovinos. Sois falsos, portanto, é preciso usar da lógica. É preciso não usar gravata e, sobretudo, ...
FERNANDO PESSOA FASCISTA
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Tiago GL
Eu que para a esquerda me pendo -- quem sabe se não há quem veja nisto dissimulação? -- nos actos, nos amigos, horrorizo-me sempre com o retrato assassino numa frase lapidar, consumada em "O Fernando Pessoa era fascista", deste grande homem FERNANDO PESSOA, vertido em génio nestas palavras aqui por baixo de onde escrevo, e aqui cá em cima quero dizer que se uma coisa nos parece bela, ela em si é bela, se nos parece sensível, é porque o é, se nos parece MAIOR, é porque nos faz olhar para o CÉU. E o Fernando Pessoa é maior e não é que era também, nisto, pessoa? Diz um gajo prosaico, o João César Monteiro, numa maneira enviesada num filme, o que ele próprio JCM queria dizer, "Quando eu subir aos céus, direi a vocês mortais: Fodam-se vocês agora que a mim não me fodem mais", cito de cor. Amigos, fodam-se vocês agora, pois Pessoa a estar num céu para o qual só pode existir se existir para pessoas como ele, nesse céu não estará a dizer nada semelhante ao que disse JCM, es...
Autopsicografia Geracional
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Tiago GL
____________________ A Geração finge dor Finge tão completamente Que chega a fingir dor Na que deveras sente ____________________ Resolução a coisa nenhuma Afectada de maneirismo Resposta que se quer uma Avançada sobre o abismo ______________________ E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama geração ______________________ Muda o dia muda a hora Gira, muda a presunção "Não será senão agora Que será o mundo são". ______________________ E nisto estamos nós Perdidos em dissolução Em vida até à foz Da nossa desilusão _______________________
Escrevo Aqui Como Não Quero
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Tiago GL
Meado entre ser mais de mim e ser mais dos outros Embato com toda a força na impossibilidade de ser uma coisa E recolho-me no cobertor de todas as noites dum Inverno na condenação de ser a outra. Li, num livro que peguei hoje, que é bom ser dos outros, ponho assim, segundo E. Sampaio e uns tantos outros com grandes propósitos Sei que não sou, digo-me eu. Nesse mesmo texto, falam de subverter o mal, ponho assim, sendo dos outros Digo-me que se fosse assim, não seria a subversão em si próprio? Que considerar como possível ser ou não é em si negar que se o é? Sou dos outros porque vivo na orla de mim. Não porque penso que é bom. Vivo assim porque é de mim. A condenação dos outros acontece aí, no contorno, e empurram-me para o centro, que não gosta, não quer, quer sair, quer ser, quer existir, e só o consegue saindo de si. Há todo um abismo quando eu, mágico sem truques, desloco o olhar, de mágico, para dentro. Enfeitiço-me, amaldiçoo-me. Estou a escrever aqui como não quero, so...
Dos Enfunados, Emproados e Cómodos
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Tiago GL
Que se lixem os emproados, que vão embarcados, cómodos, que vão enfunados. É preciso ir, incómodo. Ir, sem saber. Ir, sem aprovação. Ir. Que se lixem os que já sabem. Não saber não tem nada que ver com saber ou não saber, tem só que ver com a transição entre a maravilha e o abismo. Que se lixem os que já sabem. Na maravilha de não saber o que se segue, segue-se o abismo de saber o que dizer, e nunca o contrário.
Leah
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Tiago GL
A minha sobrinha é linda. A minha sobrinha é maravilha. Eu amo a minha sobrinha inteiramente. Sou mais inteiro porque ela existe. Sou mais eu. Sou mais cá. Sou mais em mim. Sou mais dos outros. Se conhecerem o poema do rio da minha aldeia do Pessoa, então sabem que a minha sobrinha é como o rio da minha aldeia e que o Tejo para mim pouco importa. A minha sobrinha brinca. E palra, melhor, palavra feia aquela, ela canta. E é linda, já disse? A minha sobrinha é ternura. Vêem-se guerras, notícias escabrosas, e ela sorri e é só ternura. A ternura da minha sobrinha é misteriosa porque não depende de nada e encerra o grande mistério de não ter nenhuma razão para isso. Claro, e dizem bem, que é das coisas quando têm mistério parecerem ter razões ocultas que não conseguimos discernir. Mas há maior mistério ser só ternura e não ter razão nenhuma para isso? Ser o que é? A minha sobrinha cresce. Quando nasceu, nasceu pequena. E era a coisa mais frágil e terna. E agora está maior, porque neste dia...
Maravilha
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Tiago GL
Soube da minha avó Teresa toda a vida que tocava piano E se mo perguntarem fica a saber a pessoa que a minha avó tocava piano E agora sabem-no vocês que a minha avó tocava piano Maravilha! Durante muitos anos soube que a minha avó tocava piano E se mo perguntassem diria que sabia tocar Mas não o sabia eu que o sabia Saberia? Um dia, muito depois de saber que a minha avó tocava piano A minha avó sentou-se E a minha avó e a minha avó tocar piano encontraram-se E toda uma vida foi evocada E a minha avó transfigurou-se-me E a maravilha maravilhou-me Nesse dia. E percebo agora À distância do que me provocou Que saber não tem nada que se saiba Se nele não houver o que maravilhou.
Amor A Ligar
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No autocarro A senhora no lugar diante de mim Tocou-se-lhe o telefone Tinha Amor escrito, era o Amor que lhe ligava E ela fez descaso E não atendeu imediatamente Deixou o Amor chamar umas quantas vezes Enquanto falava com a amiga E depois atendeu E disse Que já tinha saído do trabalho E que estava já no autocarro A caminho de casa.
EVIL EMPIRE Dos Rage Against The Machine / Revy Krund
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Há nestas músicas qualquer coisa do que é ser ocidental: digo ocidental no sentido do progressista, don't give a fuck, andar de skate, comprar porcaria que não nos vai servir para coisa nenhuma, namorar alguém que a família não conhece de lado nenhum nem nunca vai conhecer, ver filmes por ócio, movimento em progressão para lado nenhum porque não há lado nenhum para onde ir, fazer desporto de ondas de praia que matam muitos, há qualquer coisa no ocidente de novo, evocadas com estas músicas, evoco a força que move a humanidade, que faz a humanidade saber quem é e ver o Tom Cruise, e que no mesmo movimento se está a lixar para quem é o Tom Cruise, esta sociedade sem Deus cujo Deus é não ter Deus, esta luz que refracta tudo o que não a compreende mas a explora mas que é Maior e é Maior porque é Livre e sabe que é Livre e vence porque Progride assim enquanto os outros a Seguem. E NISTO: estamos insatisfeitos! E o mundo não o sabe. Somos a Vanguarda de Coisa Nenhuma. E Agora Dizem...
Mãe
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Tiago GL
A minha mãe não se lembra de que quando se almoça vamos "almoçar", porque lhe lembra o jantar, mas não diz do jantar que se vai almoçar, porque a minha mãe janta duas vezes, e janta duas vezes porque é feita de noite e é da noite jantar, embora por vezes, quando tem mesmo de ser, se lembre de fazer um almoço, mas tem que ser um almoço-ajantarado. A minha mãe não se lembra do nome das coisas que quer nomear, por isso diz que são "coisas" as coisas que quer nomear, porque a minha mãe lembra-se primeiramente dos outros antes de nomear o que quer nomear, e pede aos outros ajuda para encontrar o que quer, porque a minha mãe é feita dos outros e é coisa dos outros saberem o que a minha mãe quer: e apenas quer o que os outros querem. A minha mãe tem a memória dos que vivem no dia e vive para onde o dia a levar, tanto podendo ser aqui ou ali, não lhe importa onde, por isso quando o dia não a leva para onde o dia vai, a minha mãe frustra-se porque é para lá. A minha mãe é pr...
Em Mondariz (Auto-Psicografia)
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Tiago GL
Há pouco vi uma pessoa que me lembrou o meu pai, e quando o vi, lembrou o que seria ele estar ali e comecei a pensar neste texto e as lágrimas ameaçaram querer sair e eu que estou numa feira cheia de gente e parei de pensar nisso. Mas logo não fui capaz de não sentir que ele estava cá entre nós, e a vida tornou-se mais doce, e as lágrimas que sabem que não é assim ameaçaram querer sair e eu que estou numa feira cheia de gente e parei de pensar nisso. E agora, que procurei um sítio junto a uma parede onde me apoio, onde vim para me recatar, numa feira cheia gente, as lágrimas que ameaçavam querer sair caem, enquanto escrevo este texto. São doces. Como a vida não é, mas como a presença do meu pai é. E eu não sabia que ainda podia ser. Ainda que enganado.
Paredes de Coura
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Tiago GL
Há pouco, no noticiário, ouvi uns miúdos a falarem da experiência que tiveram no festival Paredes de Coura, completamente parvos e tont os, e pensei: "Q ue estúpido que eu era". Mas estando agora a escrever isto, penso: "Que estúpidos que os fazem". E agora ainda mais penso: "E que bem por estúpidos se fazem passar". E acho ainda mesmo mais: "Que estúpido o que estupidez vê nisto".
Almas Mortas - Ian Curtis
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Tiago GL
Que me arranquem o sonho Que me retira o agora Sou em mim duplo E equivalente E chamo-me Chamam-me Chamam-me Num contínuo Em mim, o passado é presente Tudo me ridiculariza Do império deificado Fui despojado E chamo-me E chamam-me Num contínuo Chamam-me Chamam-me, chamam-me Chamam-me, chamam-me E chamam-me Chamam-me Num contínuo Tradução livre minha da letra da música Dead Souls (dos Joy Division ) escrita por Ian Curtis.
ECCE HOMO NIETZSCHE
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Tiago GL
Incauto, escrevi uma primeira parte (1), seguida de uma segunda (2), à medida que ia lendo. (1) Primeiras considerações sobre Ecce Homo: Nietzsche, nos primeiros capítulos de Ecce Homo, de títulos "Porque Sou Tão Sábio" e "Porque Sou Tão Sagaz", fazem-me lembrar a toada desta entrada de diário de Dali (um livro que não faço ideia de como me calhou em casa) que diz, sei lá por que palavras, que naquele dia Dali teria defecado fezes numa forma semelhante à de um rinoceronte, sugerindo que também ele, Dali, e não podia ser doutra forma, tinha a vitalidade de um rinoceronte, numa relação estranha entre o produtor de fezes e as fezes produzidas, ficando maravilhado consigo, cheio de orgulho, "Que rinoceronte que eu sou!". Sustentando a comparação, no caso de Nietzsche, a fez-rinoceronte é o texto e ele o prodígio que o fez, dizendo de coisas miseravelmente triviais, como o que come, como se de...
Noite-Dia
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Tiago GL
Hoje, numa noite-dia, em que a temperatura da lua parece a do sol, em que a escuridão parece um ventre, os insectos estão mortos e encolhidos sobre o seu corpo à porta da minha janela, e parecem, porque mo lembraram, peixes à porta do mar que vêm a terra morrer. Nã o entendo, onde em mim, onde tão facilmente se encaixa esta comparação, dos peixes com aqueloutros - mosquitos, moscas, e outros ainda, estes animais abstractos inimagináveis por Deus, só possíveis porque tão demasiadamente reais. Tão mais misterioso é para mim que acho que a comparação é em tudo mais exacta do que imagino e em quase tudo uma igualdade: nisto, simultaneamente, mais incompreensível, porque se embarco no sentido que tem, logo o perco, e se me afasto, mais me aproximo. É do sentimento que estou perto, em nada penso.
Toul
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Tiago GL
Falo de tudo sem ir adentro, que falar não é como sentir. Oiço música contente e danço e bebo que nem um louco. Procuro bravatas, guerras, distrair-me, dividir-me. Fico triste com um dia de chuva e culpo a meteorologia. Procuro estar limpo, organizado. Nunca falo a mais de 3 pensamentos de profundidade. Ouvir uma música triste é como atravessar uma estrada na passadeira, vendo-o abrandar à medida que se aproxima, será que é hoje que morro atropelado pela tristeza?
Lido num Museu
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Tiago GL
"Boas vindas ao [museu em questão]". Assim se recebia o visitante a um museu em Lisboa. O texto de introdução tinha mais destes cuidados "neutros", por isso digo com certeza isto: se se é tão sectário até na forma como se recebe quem lá vai, porque me parece, assim como todo o texto, que é uma forma desastrosa de tentar uma forma "neutra" de felicitação da chegada dos visitantes, então imagino como será feita a selecção dos artistas. Sugiro que se entenda que em "Bem-vindo", "vindo" é verbo, em "Boas vindas", "vindas" é substantivo. De palavra em palavra, de wokismo em wokismo, de "inclusão" em "inclusão", se mata uma língua. E se mata um museu.
Cheio
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Tiago GL
as pessoas gostam da americanice de discutir se o copo está meio cheio se meio vazio o que me chateia é que não percebem que pouco importa é tudo igual ao litro não tem filosofia não tem vida não tem piada não, não, não já eu sou dos que gostam de rematar a pergunta bem portuguesa tinto ou branco? cheio!
Do Génio
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Tiago GL
Havia um tipo que não se espantava. Em tudo havia cabimento. Se certo artista era um artista maior, acontecia que o rapaz o entendia perfeitamente e passava então a enumerar os defeitos nele. Se certo artista era um artista menor, acontecia que o rapaz o entendia perfeitamente e passava então a enumerar as qualidades dele. Havia um tipo que não se interessava. Em tudo havia fingimento.
Reversi
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Tiago GL
O meu pai sempre foi bondoso E sempre pensou e bem que era ilógico o mal. Lembro-me de em pequenino Estar numa salinha Pequena Na qual, lembro o meu pai Jogar no computador um jogo. Lembro-me de aprender assim com a ternura do meu pai a jogar esse jogo. E assim aprendia eu de pequenino pelo lado lúdico de um jogo o que tem de lógica a vida: O bem.
Carta de Maria José Ao Seu Amado António
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A propósito do dia da mulher, deixo a carta da Maria José, corcunda e inválida, um heterónimo de Fernando Pessoa que tem a sua expressão nesta carta que escreve ao seu amado. Estou para além de comovido, estou para além de deslumbrado com o génio de Fernando Pessoa. " Senhor António: O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo. O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter...
Carta de José Maria À Sua Amada Joana
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Inspirado pelo heterónimo Maria José, de Fernando Pessoa, que tem única expressão numa carta ao seu amado António, escrevi eu uma carta de um tal de louco José Maria à sua amada Joana, imaginado por mim. " Senhora Joana, Quero escrever-lhe para que saiba que sei já de antemão o que possa pensar - não foi por si que o soube, que sei não ter maldade nenhuma - e que apesar de querê-lo com todas forças, por um momento, estar perto de si, não tentarei sequer falar-lhe. Pois que devo ter ensandecido mais. Lá no pano, em casa, toda a gente diz que sou tonto. Que não tenho tino. Que sonho o impossível. E o sentido que têm eles nisto é certo, mas não gosto. Aos olhos deles sou tonto e sem tino e só sonho só agora, e isso sim me aflige, já que em nada mudei. Sendo ainda mais assim que agora a tudo isto se junta medo. Medo de que vá falar à senhora. Quero escrever-lhe e assim dizer à senhora Joana quem sou, sem lho dizer, p...
Devagar Se Vai Ao Longe
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Tiago GL
Há pouco, vi um caracol. Fui embora. E voltei. Agora já não sei onde está, porque se escondeu. Lentamente. Muito lentamente. Engraçado que quando o caracol me viu pensou em esconder-se, porque estava em perigo. Pensei, por isso, que o caracol contasse com a benevolência momentânea das coisas, mas que sabe que tudo muda num ápice. O caracol, como alguns de nós, prossegue com os seus grandes planos, independentemente da lentidão com que decorrem. Quero, nisto, ser como o caracol.
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Tiago GL
Hoje, vi uma senhora, que era negra, que não por ser negra, mas que era negra, e acontecendo que era quem é, não mais do que isso, estava a ver um vídeo, que um algoritmo lhe deu como a sequência mais certa para os vídeos que tinha visto antes, que tinha como título "Dez pessoas vivem num quarto e pagam cada um 150 euros" no Instagram, num autocarro, acontecendo que eu, branco, que não por ser branco, mas que sou branco, e acontecendo que sou quem sou, não mais do que isso, comovi-me profundamente com uma fragilidade, quando esta senhora, quando viu esse tal vídeo, segurando o telemóvel com uma mão, prosseguiu com a outra contando dedo a dedo, com dificuldade, quantos eram dez. E ela em tudo parecia uma criança, mas não é o mesmo que vê-lo numa criança, porque sabemos que a criança crescerá e tornar-se-á capaz. É perigoso tentar encapsular num texto o que isto significou para mim. Primeiro que tudo, significou que eu, que sei o que são dez, não sei nada de nada sobre...
É NA DiSTÂNCIA, OU NA MEMÓRIA, OU NA IMAGINAÇÃO QUE O HIMALAIA É DA SUA ALTURA, OU TALVEZ UM POUCO MAIS ALTO!
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Tiago GL
AS NOSSAS ENTREVISTAS O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesas. Entrevistar Fernando Pessoa não é fácil. Só é fácil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento. Fernando Pessoa, quer como Fernando Pessoa, quer como Álvaro de Campos - o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida - raios partam a Vida e quem lá ande! -é sempre um voluptuoso do raciocínio, um amante da inteligência, podemos dizer: um criador duma nova Razão. Paradoxal? Sem dúvida. Mas há tantas maneiras de ser paradoxal! A entrevista que se segue, toda escrita por Fernando Pessoa - nem podia deixar de ser, visto Fernando Pessoa possuir uma sintaxe própria para a lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia, vai decerto prender o espírito dos leitores... Aten...
OS POETAS NASCEM, NÃO SE FAZEM
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Tiago GL
OS POETAS NASCEM, NÃO SE FAZEM! Fernando Pessoa Entre os vários preconceitos que formam a única bagagem literária com que os nossos “críticos” vão de viagem para Santarém (um conhecido provérbio ali os espera), o mais singular e inexplicável é aquele que consiste em confundir cultura com erudição. É frequente apanhar os nossos pensadores de jornal em flagrante delito de afirmações como esta — que tal criatura é culta porque tem lido muito, porque sabe muito, porque compulsou, assimilando, uma grande paginaria de livros. Ao contrário dos preconceitos da plebe legítima, que muitas vezes têm uma haste de observação, os dogmas da plebe intelectual são falsos em todo o seu comprimento. Este, que acabo de citar, é um dos mais falsos. Porque não só erudição e cultura não são a mesma coisa, como, até, são coisas opostas. Não vão julgar, decerto, que a minha explicação vai ser que é erudito quem leu sem combinar o que leu, e culto quem lê aproveitando. Eu nunca dou explicações que se possam pre...
Keanu Reeves no Metro
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Tiago GL
Acontece uma coisa (!) na ideia (!) de ser famoso (!) que me chateia! O assunto é tão só uma figura que o feed do FB me dá como sendo um famoso à maneira: Keanu Reeves. E o que irrita (!) é que não lhe basta (!) ser famoso (!), tem de ser grande também entre os que são anónimos! Essa figura do famoso que quer ser famoso-anónimo é muito famosa. E só lhe traz mais fama, que se ele não a quer, então porque faz por tê-la? Tenho dito!
Poema-Jogo Com As Palavras Desenho, Desdenho e Desejo
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Tiago GL
Escrevo Que Não Quero Escrever
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Tiago GL
Se este texto começasse pelo que pensei escrever de jacto, começaria por "Merda para os vindouros.". Sei que alguém o disse, mas não lembro quem. Sei também que não quereria falar dele. Agora que penso melhor, acho que é do Luiz Pacheco. Sei agora definitivamente que não quereria falar dele para dizer a frase. E assim morre este primeiro pensamento que morre em não querer falar dele. A frase é só uma exasperação. Quis mostrar-me exasperado muito porque cheguei a este editor de texto sem grande vontade de escrever. E aqui morre, com tudo isto, este primeiro texto. E renasce. Renasce na vontade renovada de querer sair desse desaforo. Não falo senão para os vindouros, porque este texto não é senão para ser lido depois de escrito. E, assim, nessa primeira frase quis matar o texto. Não saio disto. E renasce novamente, nesta ideia de morte do texto, nesta imobilidade em que me quero: Quero tirar-lhe o véu, sem me revelar. Decididamente, não quis escrever este texto.